Archive for October 2006
Conto e texto novos
A solidão do diabo
Às vezes não precisamos ler um livro por inteiro para saber que ele é bom. Nem mesmo da opinião de alguém. Simplesmente acontece de você ver um livro, gostar da capa, ter ouvido falar do autor em algum lugar ou lido algo sobre ele, e pronto, nem a orelha do livro você precisa ler. É pagar e levar.
Claro que acontece de a intuição falhar. Comigo só falhou quando fui contra ela. Tipo: bateu a vontade de comprar tal livro, mas por duas vezes a compra não pôde ser feita. Foram dois sinais. Na terceira oportunidade, comprei, e o livro era ruim mesmo.
Isso aconteceu poucas vezes, ainda bem. A minha sorte é que agora tenho gasto menos grana livros arriscados. As vantagens de ser um pseudo-crítico literário.
Mas “A solidão do diabo” (Bertrand Brasil, 352 págs), de Paulo Bentancur, que ganhei no Leia Livro, se encaixa no primeiro exemplo: é um livro bom, e eu não precisei de muita coisa pra saber disso.
Nunca li nada do Paulo. Quer dizer, li a orelha do livro do Paulo Scott, “Senhor Escuridão”, que ficou a cargo dele. Sei que ele é escritor e crítico literário. E só.
Mas vejam o título: “A solidão do diabo”. A capa, belíssima. As páginas: 352. De contos. 59 deles. E aí pode-se ir no site da editora e ler a sinopse:
“A Solidão do Diabo, de Paulo Bentancur, traz 59 histórias fortes e surpreendentes nas quais as fronteiras morais são transgredidas com uma perigosa suavidade, entre o lírico e o lancinante, atingindo um raro resultado: a implacável serenidade filosófica de quem sobreviveu e não conta seus mortos. Os conceitos pelos quais transitamos cotidianamente, numa quase confortável sobrevivência, vão caindo.”
Não que a sinopse seja 100% confiável. Afinal, o trabalho da editora é falar bem do livro, seja ele bom ou ruim. Mas enfim, o fato é que “A solidão do diabo” é soberbo, diria eu.
E nem li nada do livro. Dois contos, apenas. Muito bons, por sinal. E já deu pra ver qual o nível dos outros. Além disso, orelha de José Castello. Prefácio de Moacyr Scliar. Tá bem, eu sei que tem escritor que é pago pra fazer orelhas de livros. Mas confio no bom senso e na reputação do Castello, bem como no bom senso e na reputação do Scliar.
Eis um livro que, se eu não tivesse conseguido pelo Leia Livro, eu teria comprado logo logo. E recomendo desde já.
Verdades verdadeiras
Eu recebo o horóscopo diariamente em um de meus emails. Não sei por quê. Nunca solicitei. Me cadastrei no site, é verdade, mas isso foi séculos atrás. De uns tempos para cá, começaram a me enviar. Resolvi não cancelar porque de vez em quando rende umas risadas e um post de blog.
O de hoje: “Momento de encontro consigo mesmo/a e de maior percepção de seus males.” Essa foi a dica do dia. O engraçado é que aconteceu algo relacionado a isso, minutos atrás.
Portanto, fica aqui a minha dica: da próxima vez que você xingar e maldizer a si mesmo, preste bastante atenção nas palavras. É muito possível que você esteja ouvindo as maiores verdades de sua vida. Ditas por você mesmo.
Trópico de Câncer
“ - Mas o que você quer das mulheres, então? – pergunto.
Ele esfrega as mãos, solta o lábio inferior. Parece completamente frustrado. Quando consegue gaguejar algumas frases soltas é com a convicção de que atrás das palavras há uma enorme utilidade.
- Quero conseguir me entregar a uma mulher – declara. – Quero que ela me tire de dentro de mim. Para isso, precisa ser melhor do que eu, precisa ter cabeça, não só buceta. Tem que me convencer que eu preciso dela, que não posso viver sem ela. Você acha uma puta dessas pra mim? Se fizer isso, eu lhe dou meu emprego. Não ia me incomodar mais com o que ia me acontecer, não ia precisar de emprego nem de amigos, livros, de nada. Se ela pudesse me convencer de que existe algo mais importante no mundo do que eu. Porra, eu me odeio! E odeio mais ainda essas fêmeas filhas-da-puta porque nenhuma presta.”
Trecho do romance “Trópico de Câncer“, de Henry Miller, que chegou aqui por esses dias, fui folheando e não vejo a hora de iniciar sua leitura.
Mais sobre a edição especial de “O encontro marcado”
Porque recebi a minha hoje. E está uma beleza. Os filhos do Sabino capricharam. Tem fotos dele, depoimentos de resenhas da época do lançamento, depoimentos do Zuenir Ventura e do Carlos Heitor Cony colhidos este ano, e os depoimentos de quatro leitores.
O meu ficou assim:
“Eu tinha 19 anos quando li ’O encontro marcado’ pela primeira vez. Quatro anos atrás, portanto. Eu me senti o próprio Eduardo Marciano. Foi uma época decisiva de minha vida. Era a época de fazer algumas escolhas, que poderiam determinar o resto dela. Ao menos era o que eu pensava. Mas depois de ler o romance, o que ficou foi a lição de que é sempre tempo de recomeçar. (Essas palavras nem de longe resumem o quanto ‘O encontro marcado’ me afetou. É um livro que tenho lido ao menos uma vez por ano, desde que o li pela primeira vez. É uma fonte inesgotável de energia. E o maior romance de nossa literatura, em minha opinião.)”
Ou seja: ficou como eu queria. Porque a parte entre parênteses não fazia parte do depoimento, mas sim do email no qual eu enviei o depoimento. Ficou muito legal, aliás. Modéstia à parte, o depoimento. E, mais que ele, a edição que fizeram das duas partes. O encarte inteiro ficou muito, mas muito bonito, mesmo. Trilegal.
E é uma honra poder participar disso. Só eu sei o quanto o Fernando e sua obra são importantes para mim. Do que eu digo, dá pra ter só uma noção. A plenitude dessa importância, só eu mesmo sei.
Walk On – A jornada espiritual do U2

A banda irlandesa U2 não se envolveu com questões políticas e religiosas “de uns tempos pra cá”. Bono Vox, vocalista do U2, não é um oportunista em busca de um Nobel da Paz. Se você pensa dessa maneira ou ouviu alguém dizendo isso, seus problemas acabaram.
“Walk On – A jornada espiritual do U2” (W4 Editora, 188 págs.) esclarece essas e outras questões. Escrito por Steve Stockman, ministro presbiteriano na Irlanda, o livro traça um paralelo entre a carreira do U2 e a relação de seus integrantes com religião e política.
Nascido em Dublin, na Irlanda, no final dos anos 70, o U2 tem desde seu primeiro disco “Boy”, escrito letras inspiradas na fé (o cristianismo) de seus integrantes e nos acontecimentos que presenciaram na Irlanda e, posteriormente, no mundo.
(“Boy”, aliás, foi gravado numa época em que os membros da banda – exceto Adam Clayton, baixista – faziam parte de um grupo de estudos bíblicos).
A religião quase foi responsável pelo fim do grupo. “Enquanto a banda estava fazendo uma turnê, entre ‘Boy’ e a gravação de ‘October’ – segundo álbum do U2 –, um membro da comunidade da região norte de Dublin dizia ter recebido uma profecia de que Deus queria que a banda parasse de tocar.”
Mais um (o quinto!) do Leia Livro
Alô, alô, Teresinhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!
Ganhei mais um livro do Leia Livro. Xô procurar o link dele aqui no blog… Achei! Já é o quinto livro que ganho por lá, se não estou ficando doido.
1) Voláteis, Paulo Scott
2) Ensaios escolhidos: da prosa de ficção, do ensaísmo e da crítica literária”, Ivan Junqueira
3) O peregrino, John Twelve Hawks
4) Butterfield 8, John O’Hara
e finally
5)A solidão do diabo, Paulo Bentancur.
Semana que vem tô com ele na mão. Se você não conhece o Leia Livro, tá bom de conhecer. Proposta muito boa e uma saída pra quem não pode ficar gastando grana com livros. Além de incentivar a leitura, claro.
Fora isso, recebi ontem aqui o “Trópico de Câncer“, romance, de Henry Miller. Já separei um trecho pra colocar aqui e vou logo avisando: mulheres, preparem-se. Vocês saberão o que um homem quer mesmo de uma mulher.
Lira dos vinte anos
Se você procurava algo sobre o livro de Álvares de Azevedo, me perdoe. Tenho o livro, já li boa parte, é um clássico e recomendo a qualquer um. Mas quero apenas deixar um trecho de uma música do cantor e compositor Belchior.
“Meu pai não aprova o que eu faço.
Tampouco eu aprovo o filho que ele fez.
Sem sangue nas veias, com nervos de aço,
Rejeito o abraço que me dá por mês.”
Belchior é um dos melhores cantores e compositores brasileiros, na minha opinião. E, infelizmente, não tem o reconhecimento que merece.
Consegui o Prosa&Verso!
Fui e não levei
Fui pra aula sim, mas não levei o livro do Orwell. Vai que acontece alguma coisa e eu perco o livro? Putz, sem chance…
Li um pouco dele quando cheguei em casa. Rapaz, é muito bom. Não é nada de extraordinário. Em um ensaio mesmo, por exemplo, ele fala sobre o tratamento que recebeu em um hospital público em Paris. Ele estava doente e teve de ficar alguns dias por lá. Orwell diz que os médicos não tratavam os pacientes como seres humanos, e sim como animais. Simplesmente não trocavam sequer um “oi” com os doentes. Não li o texto inteiro ainda, mas é terrível isso. As coisas mudaram muito desde aquela época – foi em 1929 isso, se não me falha a memória – mas ainda há médicos assim.
Não só médicos, aliás. Muita gente por aí parece não ter coração. Custa dizer um “bom dia, tudo bem?” e tratar o próximo – seja lá quem ele for - com um pingo de dignidade?
Os livros mais esperados dos últimos tempos da última semana
Rapaz, fazia tempo que eu não esperava livros com tanta ansiedade. Eu nem vou poder lê-los por inteiro agora, mas só de tê-los, poder folhear, sentir o cheiro, e ler umas passagens, tá de bom tamanho.
São eles:
Um retrato do artista quando jovem, romance, de James Joyce -> por que comprei: porque a edição nova do selo Alfaguara da Objetiva está uma beleza e não estava tão caro; além disso, é obra obrigatória na biblioteca de qualquer um; e mais além disso ainda, eu ganhei dois livros do selo, daí pode ser o início de uma mini-coleção, “mini” porque não vou ter grana pra comprar todos e nem quero todos assim e tal;
Contra o consenso, ensaios e resenhas, de Reinaldo Azevedo -> por que comprei: como tenho escrito muitas resenhas, e agora também alguns pseudo-artigos no Digestivo, preciso ler coisas do tipo, até para aprimorar meu vocabulário e tentar chegar a um estilo próprio; mas isso não conseguirei agora, estilo próprio é coisa de escritor/jornalista de verdade, coisa que não sou e não vou ser tão cedo;
Dentro da baleia e outros ensaios, ensaios, de George Orwell -> por que comprei: pelo mesmo motivo do anterior, e por causa também do Cléber Corrêa, que escreveu sobre o livro no blog dele e me deixou com água na boca.
Tudo isso graças à minha mãe, que é uma santa (e que vai me matar quando ver a fatura do cartão), e a um cupom de desconto de vinte pilas da Saraiva.
Li dois textos do livro do Reinaldo, estava lendo até agora a introdução do romance do Joyce e vou levar agora à tarde pra facul (se é que vou pra aula…) o livro do Orwell. Aí à noite volto ao normal e tento terminar dois outros livros que já estava lendo. Muito bons, por sinal.
E fui!
“O encontro marcado” no Digestivo
Em alguma manhã de 2002, encontrei em uma das estantes da biblioteca da UEFS, um exemplar do livro A volta por cima, de crônicas. Lembro que li o livro naquela mesma tarde, como escrito está na carta. A partir daquele dia, tentei ler todas as obras de Fernando Sabino disponíveis na biblioteca. Hoje me orgulho de poder apontar quais livros do escritor mineiro eu não li. Apesar de admitir que preciso reler muita coisa. As leituras que fiz, naquela época, foram as de um jovem deslumbrado, que acabara de redescobrir a paixão pela literatura, no ginásio perdida.
Mas uma dessas leituras fora especial. Me refiro ao romance O encontro marcado (Record, 2006, 288 págs.), que completa, neste mês de outubro, 50 anos de publicado, e acaba de ganhar uma edição especial comemorativa. (**)
Considerado por muitos como a obra-prima de Fernando Sabino, O encontro marcado é um romance como poucos. Por que? Responderei fazendo algumas perguntas.